O que há de errado no Portugal 2020

 

Arriscar ou resignar-se: O que há de errado no Portugal 2020P2020-logo-big

Sou um empreendedor, apaixonado por energias renováveis e com atividade profissional no setor. Além do interesse empresarial, é com interesse pessoal que sempre segui de perto a temática dos financiamentos europeus para projetos (sobretudo para inovação) tendo, como é natural, a oportunidade de trabalhar neles com alguma assiduidade.

Tive e tenho o privilégio de ser um dos fundadores da Boa Energia, uma das primeiras empresas em Portugal a apresentar kits de autoconsumo energético e podemos orgulhar-nos de ter um produto de qualidade com preços competitivos. Uma fase de alguma visibilidade inicial e a vontade de internacionalizar trouxe-nos diversos contactos e possíveis projetos, em Portugal como noutros países, sobretudo os de língua oficial Portuguesa. Isto para dizer que até ao Portugal 2020 nunca utilizámos fundos como o QREN ou PRODER. Mas agora pensámos que podia ser uma boa oportunidade de dar o uso devido a este tipo de financiamentos, utilizando-os para fazer algo que já temos no nosso plano de negócio.

O objetivo é simples: internacionalizar, implementar ideias inovadoras e contratar trabalhadores qualificados. Há financiamentos para tudo isto no P2020, logo, decidimos avançar. Mas aí esbarramos em dois males do nosso país: um antigo, a falta de respeito pelo bem comum, e outro mais contemporâneo, a tecnocracia excessiva.

Começámos pelos Vales PME, que existem para que as empresas de pequena e média dimensão possam contratar consultoria sobre como inovar, gerir ou internacionalizarem-se. Ainda mal tinha aberto a segunda fase de candidaturas, já os vales para a região de Lisboa estavam reduzidos de 75% de financiamento para os 45%. E, de repente, esgotados, sem que houvesse grande explicação oficial. A alternativa foi passar para os projetos maiores, Internacionalização e Investigação e Desenvolvimento. Sendo candidaturas de grande envergadura, decidimos ter o apoio de um consultor especializado. A primeira pergunta foi: “já verificaram se são elegíveis?”. Claro que sim: somos PME, com atividade aberta e trabalhadores a contrato e que vai criar emprego.

A análise de um guia de classificação de propostas, trouxe uma surpresa. O último ponto: “Enquadramento com a Estratégia Regional de Especialização Inteligente”. Portugal tem uma Estratégia Nacional para a Especialização Inteligente, que pretende alavancar as áreas em melhor nos podemos diferenciar e em que conta com mais centros de competência, a partir da qual, cada região desenvolveu sua. O inesperado começa quando verificamos que não constam as energias renováveis na estratégia para a região de Lisboa! No Porto também não. Pelo menos não com a clareza com que está espelhada na estratégia da região do Algarve, por exemplo.

O que está em causa é a ideia: Especialização Regional Inteligente dentro de Portugal? Portugal tem no seu todo uma dimensão mais pequena do que muitas das regiões dos nossos vizinhos Europeus. Eventualmente faria sentido, a existência de uma Estratégia de Especialização Inteligente da União Europeia, dos Estados Unidos ou até dos PALOP.

Claro que podemos ter centros de competências e até “clusters” estratégicos em determinadas zonas geográficas, mas

Estas “surpresas” constituem obstáculos e que dificultam aquilo em que os empreendedores e gestores das pequenas empresas são melhores: fazer acontecer. Tornam-nos menos competitivos, mais lentos e menos resistentes aos obstáculos e imprevistos. Agora, só há duas saídas: arriscar e acreditar que vai dar tudo certo ou resignar-se.

in Jornal de Negócios, 22 de Outubro de 2015

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